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Crítica | Black Panther

17 fev , 2018  

Homens sábios constroem pontes; tolos constroem barreiras”.

Black Panther seria um filme bom se não fosse um filme excelente. É uma afirmação um pouco confusa, mas as principais bases pra ela estão nas raízes do “padrão Marvel” de qualidade: se fosse despido de toda a sua significância histórica e cultural, Black Panther ainda seria uma obra bem feita, absolutamente decente/aceitável em termos de compasso e técnica. No entanto, a Marvel levou dez longos anos e 17 tentativas pra arriscar uma passeada pela excelência, então tentar separar técnica e compasso da significância que os engrandece é quase imoral a essa altura.

10 anos e 17 filmes” talvez não faça justiça à jornada completa. O personagem fará 52 anos de existência nas HQs em julho de 2018, e desde 1992 – 26 anos, metade dessa história – havia uma morosa conversa sobre adaptar o herói para as telonas, encabeçada por ninguém menos que Wesley Snipes. Não é difícil falar de atraso e percalços quando falamos da chegada do Pantera Negra aos cinemas, até porque esses próprios obstáculos “industriais” já servem como alegoria (e/ou alerta) de uma questão social muito mais grave e abrangente. Na década de 90, o que freou a adaptação foi o preconceito e a desinformação. Felizmente, pelo menos no que diz respeito à Arte, os tempos vêm mudando e a espera valeu cada segundo.

O diretor de Black Panther, Ryan Coogler, tem somente 31 anos – e, até então, apenas dois outros filmes no currículo. Apesar de ser o mais novo e “inexperiente” dos diretores atrelados ao MCU, é incontestável que seus trabalhos sejam frutos de paixão, luta e dedicação. Coogler, a exemplo de muitas outras crianças negras dos Estados Unidos, cresceu lendo os quadrinhos do herói. Mais além, ele nasceu em Oakland, cidade-natal do movimento histórico dos Panteras Negras. Nesse sentido, Black Panther não desponta como “um outro filme pessoal que é bom apesar de ser de herói”. O Pantera Negra permitiu que Coogler extrapolasse os limites da realidade que prendiam Fruitvale Station e Creed ao chão, de forma que a crueza documental de seus dois primeiros filmes cedesse um pouquinho de espaço ao simbolismo da metáfora.

É importante lembrar que o intervalo que separou Thor: Ragnarok de Black Panther foi um dos menores do MCU. O último Thor, essencialmente uma comédia, teve a 9ª maior bilheteria da história do universo cinematográfico do estúdio, praticamente empatado com o Iron Man de 2008, que encabeçou o levante moderno dos super-heróis. Black Panther não tinha razões estatísticas pra “arriscar”, principalmente por ser um filme de origem. Rodeado de sucessos recentes, Ryan Coogler poderia ter se reservado ao formulaico feijão com arroz do primeiro parágrafo, e investido numa obra explosiva e divertida, mas eventualmente esquecível. Não foi o que aconteceu; conjugando grande poder e grande responsabilidade, o 18º título da Marvel estabelece um cisma de ritmo e estrutura – cujo foco é muito mais externo do que interno.

Oportunamente, “grande poder e grande responsabilidade” é uma lógica bem mais aplicável à narrativa de Black Panther do que a qualquer outro filme recente do gênero – especialmente porque ela abraça não unicamente a problemática moral do personagem-título, mas todo o cenário que o cerca. Parte-se da premissa de que a fictícia Wakanda, berço africano do Pantera Negra, tenha se isolado do mundo após séculos de guerra e exploração, e guardado com ela seus costumes e segredos tecnológicos. Cabe ao herói T’Challa (Chadwick Boseman), herdeiro do trono de Wakanda e da linhagem/título de Pantera Negra, decidir se sua nação está pronta pra se desfazer da discrição e do isolamento e compartilhar suas riquezas e conhecimento – porém essa decisão não será arbitrária: T’Challa é rei, mas, antes de ser absoluto, T’Challa também é um homem cercado de amigos, inimigos, família e tradições.

O primeiro filme de maioria negra da Marvel também é sua obra mais cinza. Todos os personagens e elementos que orbitam o dilema de Wakanda – incluindo seu protagonista – são vacilantes. Há força, sem sombra de dúvida, e também há insegurança e limites. Essa amálgama complexa de emoções não é somente rara em filmes de heróis; é uma carga sentimental profunda e valiosa pra qualquer Arte, ainda mais fundamental pra um filme protagonizado por uma minoria étnica da indústria cinematográfica. Os humanos de Black Panther são mortais, passíveis de ações e reações não-lineares, e que respondem pelas consequências de seus atos – e, politicamente, pela natureza de sua existência.

T’Challa é, de certa forma, uma extensão criativa do padrão cinematográfico de Ryan Coogler: um protagonista que procura por seu lugar no universo enquanto trabalha suas próprias dificuldades – majoritariamente familiares. O centro familiar de T’Challa, aliás, talvez seja o ponto-chave do filme. Essencialmente formado por mulheres, esse núcleo abrange o cerne do conflito de tradição e responsabilidade. Okoye (Danai Gurira), general e protetora de T’Challa e Wakanda, oscila entre amizade e obrigação; Nakia (Lupita Nyong’o), espiã de Wakanda e ex-namorada de T’Challa, oscila entre paixão e futuro; Ramonda (Angela Bassett), rainha de Wakanda e mãe de T’Challa, oscila entre carinho e austeridade; Suri (Letitia Wright), cientista e irmã de T’Challa, oscila entre progresso e costume. No balanço das contas, Black Panther parece fazer mais pela representatividade e pela tridimensionalidade feminina do que todos os títulos anteriores do MCU somados – e, pela graça do cutucão gratuito na DC, mais do que Wonder Woman fez no ano passado, mesmo ao colocar uma mulher como protagonista.

Quanto ao conflito direto de Black Panther, a situação é um pouco mais intrincada. As escalas de cinza da narrativa se estendem a quase todos os personagens, e seria mais justo assumir que o Pantera Negra não tem um vilão “convencional” nesse filme. Killmonger (Michael B. Jordan) é obviamente um antagonista, mas antagonismo não prevê vilania – apenas oposição. Por essa lógica, Killmonger é um frágil refém de sua realidade – um homem negro que, ao contrário dos abastados habitantes de Wakanda, experimentou na pele as agruras do abandono, da miséria e do preconceito. É um personagem marcado pela maldição da promessa: a promessa de um dia melhor, de uma vida melhor, de um mundo melhor e mais justo que aparentemente não existe e jamais existirá sem enfrentamento. Nesse sentido, e evocando parte da mais famosa ideologia de Malcolm X (e, ironicamente, dos próprios Panteras Negras históricos), Killmonger luta pela supremacia negra: o que não veio pela promessa e pela esperança, virá pela violência e pela força.

Black Panther se afirma nessa dualidade que é comum à maior parte dos herdeiros da diáspora africana, entre o que é moderno e o que é ancestral, entre o que é diplomático e o que é grosseiro, criando pontes entre os eixos. Ainda é um filme de super-heróis, mas que se aventura além das amarras de um blockbuster pra abraçar e dar relevo a traços políticos e culturais, que em outros títulos são apenas auxiliares. Fórmula e identidade andam de mãos dadas, e isso permite que Hollywood apresente a periferia para o grande público sem se sujeitar a estereótipos manjados e desleixados.

Em uma das cenas finais de Black Panther, um grupo de crianças negras em uma quadra de basquete de Oakland, berço dos Panteras Negras históricos, interrompe a brincadeira pra admirar a tecnologia do Pantera Negra heroico, imponente e essencialmente alienígena. O assombro das crianças é superior à curiosidade; a magnitude de T’Challa e sua riqueza é, antes, símbolo de esperança e possibilidade. O Pantera Negra é a encarnação de uma antiga promessa, uma velha dívida que aparentemente não tardará a ser quitada naquele universo. É infinitamente mais simples na ficção, sem dúvida alguma. São passos pequenos. A contar da estreia de Black Panther, que já se firmou como o filme de herói melhor criticado da História do Cinema, muitas crianças negras terão um novo ícone pra admirar e seguir. O conceito de salvação absoluta no mundo real ainda soa tão alienígena quanto a tecnologia de Wakanda, mas nossa esperança é imensa – e, como o manto do Pantera Negra, imortal.

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