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Tipos Narrativos – A aula que seu professor nunca deu

2 mar , 2016  

Faço parte daquela minoria que realmente gostava das aulas de Literatura. Um comportamento tão estranho que, quando eu respondi alegremente o ano exato da chegada do movimento Romântico ao Brasil, meu professor soltou a pérola “e aqui vocês vêem o exemplo de alguém que não tem vida social”. Bom, não posso dizer que ele estava errado.

Jogos são um acréscimo recente à minha lista de atividades. Minha mãe era professora e não ganhava o bastante para pagar uma babá para mim. A criativa solução que ela encontrou foi ficarmos ambas em período integral na escola em que eu estudava e ela dava aula. Parte do período eu estava em aula. Na outra metade “ociosa” eu tinha duas opções: assistir às aulas dela (de turmas mais avançadas) ou invadir a biblioteca ou a saleta onde ficavam guardados os livros novos. Em geral, eu escolhia a segunda opção: adorava aquele cubículo minúsculo com pilhas de livros, por trás dos quais eu literalmente podia me esconder.

Entendo o desconforto que os livros costumam causar. Somos estimulados a ler livros complexos e de linguagem densa numa idade em que ainda estamos descobrindo o significado da palavra “dicionário”. Acredito que a leitura dos clássicos é importante, mas quando introduzida cedo demais, de maneira súbita e com o arrogante ar de imposição, acaba afastando uma grande parcela de leitores em potencial. Por isso, obras como a coleção Clássicos da Literatura em Quadrinhos, da editora L&PM, é uma iniciativa tão bacana.
Os jogos e os quadrinhos são mídias mais democráticas. No caso específico dos jogos, há ainda a vantagem do dinamismo. O jogador não apenas acompanha uma história – é parte dela e se coloca no papel de personagem. O desenvolvimento ou não da campanha depende da habilidade do jogador em vencer os desafios propostos. Essa relação com a obra é algo tão fantástico que estamos vendo aqui, pelos lados da Literatura, coisas como autores que produzem suas histórias em tempo real e com a ajuda dos leitores, ou a produção dos chamados “textos interativos” – produções que convidam o leitor a tomar certo tipo de ação, como no exemplo abaixo:

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De volta aos jogos, eu já cheguei a discorrer certa vez – em um grupo em de que participo no Facebook – que games não são Literatura, porque na maioria dos jogos a história está em segundo plano. O desenvolvimento de um jogo prioriza mecânica e regras, adaptando a história a esses fatores. Mas é sempre possível fazer um paralelo bacana entre jogos e literatura (e há, inclusive, ótimos jogos baseados em obras literárias). Então, já que você cometeu a insanidade de chegar a esse ponto do texto, se prepare para a nossa aula de Tipos Narrativos.

1 – Romance

Esqueça essa ideia de que Romance necessariamente está ligado a uma melosa história de amor (essencial após a leitura de qualquer livro do Stephen King, confesso). Romances são obras que costumam apresentar diversos personagens dentro de um enredo central cercado por enredos secundários. Além das marcas temporais visíveis, outra característica do Romance é permitir maior definição do perfil dos personagens. Um jogo que se classificaria no gênero Romance seria – pasmem! – Castlevania. O jogo conta a trajetória da família Belmont, incumbida de impedir o domínio de Drácula sobre o mundo. Pairam ao redor desses personagens histórias paralelas – enredos secundários, lembra? – que servem para explicar seu passado e suas motivações. A época em que se passam os jogos e a passagem de tempo entre uma história e outra também são características dessa obra (e eu, pessoalmente, não reclamaria se fizessem uma série de livros sobre Castlevania). Bom, eu nem preciso dizer que Castlevania tem inspiração no romance Drácula, de Bram Stoker, preciso?

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2 – Conto

Contos são aqueles textos de que todo mundo gostava à época da escola. Narrativas curtas, com texto e espaço reduzidos e, em geral, presença de apenas um conflito. Literatura em conta-gotas para todos os tipos de gostos. Com os jogos também é assim. O primeiro jogo da franquia Portal é o equivalente “gamístico” de um conto. Somos inseridos em uma narrativa que já estava em movimento – recurso muito comum em muitos contos – e nos resta tentar apreender o todo da história por meio dos pequenos detalhes que surgem durante a ação. Também temos um único conflito: acabar com a raça da miserável da GLaDOS tentar escapar (vivo) do ambiente de testes da Aperture. O jogo possui um gameplay rápido, então podemos considerá-lo como um jogo curto (o primeiro, claro). E, como acontece em todo bom conto, no final ficamos com mais dúvidas do que gostaríamos.

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3 – Crônica

Tipinho bem comum de encontrar em jornais, a crônica – assim como o conto – é um texto curto. De forma geral, trata de assuntos cotidianos e não é raro que tenha um tom ácido e críticas sociais veladas. Cronistas são muito bons em criar metáforas na tentativa de explicar como funciona a sociedade. The Stanley Parable se enquadra com uma perfeição absurda no gênero crônica. A história gira em torno de Stanley, o empregado nº 427 de uma grande empresa. Stanley tem um trabalho repetitivo, maçante e sem qualquer perspectiva. Ainda assim, Stanley está satisfeito com sua vida. Até que um dia as coisas mudam um pouco… The Stanley Parable é interessante também pelo aspecto maleável de sua história. Você pode ou não tomar as ações sugeridas e isso vai modificar a linha narrativa que está sendo seguida. A crítica social é belíssima! Um jogo-crônica simples e que vale a pena ser jogado.

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4 – Fábula

Fábulas são aquelas histórias bonitinhas, com bichinhos/objetos inanimados e que trazem uma moral inserida no enredo, lembram? Esopo, Monteiro Lobato… Pegou a coisa? Não?! E que tal Ori and the Blind Forest? O pequeno Ori tem uma missão: revitalizar a floresta de Nibel. Para isso, ele precisa recuperar o três elementos da vida – água, vento e calor. Como possui um  gameplay intenso e repleto de ações “tentativa-e-erro”, talvez fique difícil para um jogador incauto perceber, de primeira, a essência por trás de Ori. Com uma história bastante simples e bonita, o jogo nos relembra da importância da preservação de recursos naturais e das consequências desastrosas que a ausência destes traz. Mais do que isso – somos colocados no papel de um personagem frágil, a princípio sem grandes poderes e sem muito a perder – e está nas mãos dele a restauração de uma floresta inteira. Tem moral pra dar e vender nessa história, não acham?

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É claro que existem outros tipos narrativos a serem citados por aqui mas, pelo menos na minha opinião, em maior ou menor grau eles são derivações dos gêneros acima. Além disso, já chega de aula de literatura por hoje, certo? Mas vou segue aí um bônus meu, pra não dizer que não falei de flores.

BÔNUS: POESIA      

Não, poesia não se enquadra enquanto gênero narrativo, mas eu tinha uma indicação tão bacana de jogo para inserir aqui que não poderia deixar de aproveitar a oportunidade. Poesia é aquele textinho que rima, né tia So? Não necessariamente, pequeno gafanhoto. As duas principais características da poesia são ritmo e métrica. A rima é um recurso facilitador, mas não crucial. E entra na categoria o jogo Give it up!, uma gracinha feita para plataforma mobile que despertou meu amor e meu ódio. O objetivo é pular plataformas e escapar de obstáculos pontiagudos seguindo um ritmo de batidas ditado pela música de fundo. Simplesmente fantástico! Se tiver a oportunidade, não deixe de jogar 😉

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