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Shun de Andrômeda: como quebrar estereótipos

2 mar , 2016  

Saint Seiya (ou como é popularmente conhecido: Cavaleiros do Zodíaco) foi um anime de grande sucesso no Brasil durante a década de 90. O desenho narra as aventuras de Seiya e seus companheiros cavaleiros que devem proteger Atena à todo custo para garantir a paz na Terra. Você com certeza conhece essa obra, e talvez não a considere algo tão incrível assim (e de certa forma, você está certo), mas é inegável o sucesso que ela fez e a importância que tem para os animes até hoje.

Acontece que a animação está completando 30 anos, e como fã assumido dos cavaleiros de Atena eu não poderia deixar de escrever algo a respeito. Tem muitas coisas legais que podemos falar sobre Cavaleiros do Zodíaco. Poderíamos falar sobre o conceito de aprendizado tangencial (amplamente falado pelos estudiosos de jogos digitais) usando esse anime como exemplo, já que muitas crianças começaram a se interessar pela mitologia grega graças aos guerreiros criados pelo Masami Kurumada. Poderíamos falar sobre construção de mundos, já que existem diversos conceitos bem utilizados durante toda a trajetória dos cavaleiros em cada uma de suas Sagas. Podíamos também nos limitar somente a falar sobre os Cavaleiros inseridos no universo dos jogos, já que seu último jogo tem sido um tremendo sucesso e tem coisas importantes pra serem discutidas sobre a preocupação em detalhes para agradar uma fanbase.

Mas eu escolhi falar sobre um cavaleiro específico. Talvez aquele que o público menos gosta. O que sofre mais piadinhas. O que nunca era escolhido pelas crianças para ser interpretado durante as rodas de brincadeira na rua. O menos falado, mas um dos mais complexos de todo o desenho: Shun de Andrômeda.

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Antes de mais nada é legal deixar algo claro aqui: Cavaleiros do Zodíaco talvez seja um dos animes com menor preocupação em construção de personagens. Isso é, como existem MUITOS cavaleiros e o objetivo principal da trama é a porradaria desenfreada com rapazes que (quase sempre) não possuem motivações próprias, então não tem como analisarmos sobre a profundidade dos personagens com o que é apresentado diretamente no anime. Mas ainda assim existem personagens interessantes que carregam muitos conceitos embutidos nas suas histórias, e isso sim gera uma discussão bacana.

A história dos saints se inicia quando eles são ainda crianças e são acolhidos pelo orfanato do senhor Mitsumasa Kido ( a do Shun começa MUITO antes, mas só podemos falar disso posteriormente). Este por sua vez recebeu uma missão importantíssima dada pelo cavaleiro de ouro Aiolos de Sagitário: encontrar aqueles que seriam os defensores da deusa Atena desta era – que estava destinada a reencarnar no corpo da pequena Saori Kido. Dessa maneira todos os órfãos que foram adotados pelo senhor Kido seriam futuramente enviados para diversos lugares do mundo onde realizariam um treinamento árduo, e se permanecessem vivos se tornariam cavaleiros de bronze.

Dentre os órfãos que moravam no orfanato, temos os cinco cavaleiros protagonistas do anime: Seiya de Pégaso, Shiryu de Dragão, Hyoga de Cisne, Ikki de Fênix e Shun de Andrômeda.

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A vida no orfanato não era fácil, e os garotos que lá viviam sempre arrumavam encrencas entre eles. Muitas vezes essas encrencas terminavam em briga. E é aí que entra a primeira coisa importante sobre a personalidade do cavaleiro de Andrômeda: ao contrário de todos os outros garotos do orfanato, Shun nunca gostou de brigas. Evitava-as ao máximo e preferia apanhar nas lutas do que recorrer à violência. Isso é mostrado como uma das principais fraquezas do garoto, que acabava sendo salvo pelo seu irmão mais velho, Ikki.

Bem, os garotos cresceram no mesmo ambiente até o dia em que foram obrigados a viajar pelo mundo para se tornarem cavaleiros. Durante o sorteio para escolher qual a localização que cada um iria, Shun acaba sendo escolhido para treinar na Ilha da Rainha da Morte, que dentre todos os campos de treinamento é o que apresenta maior perigo e considerado o lugar com menores chances de sobrevivência. Todos acreditam que o Shun não aguentaria este lugar, e é então que Ikki decide ir no lugar de seu irmão. Com isso, Shun é selecionado para o treinamento na Ilha de Andrômeda, e faz uma promessa para seu irmão mais velho de que eles irão se reencontrar.

Durante o treinamento com seu mestre Albion, Shun é constantemente advertido sobre sua personalidade “frágil” de evitar lutas. Para conseguir a armadura de Andrômeda ele é avisado sobre a importância de utilizar sua força, mas sem perder sua sensibilidade e seu senso de justiça. Com muito esforço, Shun derrota os outros concorrentes à armadura e ainda enfrenta a prova final de liberar seu cosmo de maneira intensa para libertar-se das correntes que o prendem à uma rocha e adquirir sua armadura de bronze.

Ou seja, Shun é um cavaleiro que até antes de adquirir sua armadura foi tratado como um personagem “fraco”, mas demonstra justamente o contrário ao honrar o título de um cavaleiro de Atena.

Depois do treinamento na ilha de Andrômeda, Shun retorna ao Japão para participar da Guerra Galáctica e reencontrar com seu irmão mais velho tal como havia prometido. Seu primeiro adversário nas batalhas é o cavaleiro Jabu de Unicórnio. Jabu é um cavaleiro experiente e com ótimas habilidades de combate, mas não consegue sequer encostar no cavaleiro de Andrômeda. Aqui é possível enxergar a tamanha força que o cavaleiro de bronze possui, sendo o detentor da armadura com a defesa mais poderosa dentre todas as armaduras de bronze. As correntes de Andrômeda são uma arma fatal contra os inimigos, pois além de possuírem um grande poder defensivo podem atacar seus inimigos de forma eficaz, bastando que estes tenham a intenção de matar em seus corações.

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O Ikki retorna, mas extremamente diferente do que era antes. Dominado pelo ódio, tenta à todo custo matar todos os cavaleiros de bronze e obter a armadura de ouro de Sagitário. Shun, mesmo sendo um dos cavaleiros de bronze mais poderosos mantém a mesma personalidade que tinha antigamente: ele ainda odeia as lutas e acredita que a violência é algo sem propósito. Nesse ponto você já tem todas as informações necessárias sobre as motivações do cavaleiro de Andrômeda e pontos importantíssimos da sua trajetória, o que me permite dizer por quais razões ele é um cavaleiro tão incrível.

A dualidade constante

Ao contrário dos outros cavaleiros, Shun não acredita em lutas pela paz. Enquanto seus companheiros participam das batalhas cientes de que aquilo é importante para proteção da deusa Atena, o cavaleiro de Andrômeda tenta a todo custo convencer que seus inimigos desistam. Mesmo quando percebe que não existe alternativa ele tenta incansavelmente manter seus oponentes vivos. E em praticamente todas as suas batalhas Shun confronta cavaleiros que TEM o desejo de matar, exceto por dois casos: Mime de Benetnasch e Shaka de Virgem, que explicam posteriormente a sua visão deturpada de bondade e justiça.

Portanto é interessante analisarmos a dualidade constante vivida pelo Shun: ele é um cavaleiro. Seu dever é proteger Atena, e para isso ele precisa lutar contra outros cavaleiros e garantir a paz na Terra. A única maneira de manter a paz na Terra, nesse caso, é combatendo o mal. E para combater o mal deve-se fazer o mal (matar, especificamente). Há uma frase interessante dita pelo Shun durante o anime que reflete exatamente seus sentimentos:

“É verdade… Eu me pergunto quanta gente eu haverei de machucar… A justiça não é uma desculpa… A verdade é que eu feri muita gente… Incluindo alguns dos meus amigos… Seiya… Saori… Tirem minha dúvida… O resultado de uma batalha sangrenta… É outra batalha?!… A paz nunca chegará, mesmo que a gente se esforce?”.

A sensibilidade de um cavaleiro

Shun não tem a vontade de matar e é capaz de fazer tudo para salvar seus amigos. Mas esse traço de personalidade é trazido com o personagem desde o início do anime e se fortifica conforme o tempo passa. Veja bem: Shiryu cria um grande afeto pelo Seiya depois que este salva sua vida. Mas o Shiryu era um personagem extremamente arrogante e que acreditava ser o mais habilidoso dentre os cavaleiros. Hyoga é um cara frio (sacou? sacou?) e muda muito somente após o navio da sua mãe afundar até um ponto onde ele não possa alcançar. Ikki, após ser derrotado acaba tornando-se um aliado distante dos cavaleiros de bronze, mas tenta à todo custo manter a mesma personalidade forte que nos é apresentada no início do anime. Seiya é somente um personagem idiota. Sério. Mas possui um forte laço de amizade com todos os cavaleiros por causa do seu jeito “acolhedor”.

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Todos esses cavaleiros são capazes de se sacrificar uns pelos outros. Mas aquele que tem essa motivação de forma mais latente é sem dúvidas o cavaleiro de Andrômeda. Shun, assim como sua constelação, é um cavaleiro fadado ao sacrifício. Ele é capaz de tudo para salvar seus amigos, mesmo que custe sua vida. O seu senso de justiça é sim extremamente importante, mas o amor que guarda pelos companheiros é ainda mais.

Há uma cena muito falada sobre este cavaleiro que se passou durante a Saga das 12 casas. Hyoga foi congelado pelo seu mestre Camus num esquife de gelo eterno na sétima casa do Santuário. Quando seus amigos o encontram na casa de Libra, ele já está muito debilitado e com o corpo extremamente frio, prestes à morrer. Shun sabe do quão importante é a missão que eles possuem de salvar Atena. Mas não pode ver seu amigo morrer e decide salvá-lo utilizando seu cosmo próximo ao corpo de Hyoga para aquecê-lo e salvá-lo. Shun é um personagem masculino que demonstra sensibilidade, mesmo sendo um cavaleiro. Afinal, homens podem ser sensíveis, não podem?

A ironia de um defensor da paz

Na Saga de Hades é revelado que o corpo de Shun é a reencarnação de Hades, o maior inimigo da deusa Atena. Mesmo que essa ideia não seja trabalhada da maneira brilhante que deveria ser, o caso é que tudo pelo que o cavaleiro tinha lutado durante sua vida inteira foi em vão. Por ser a pessoa mais pura da terra, Shun é o único que pode reencarnar o Deus do Submundo. Ou seja: existe uma ideia irônica sobre o destino e escolhas: Shun tinha uma visão sobre a paz verdadeira e por isso odiava violência. Somente por manter sua crença inabalável até o final ele pode se tornar Hades. Ainda assim o cavaleiro faz sua constelação valer até o último instante e para salvar seus amigos ele impede que Hades domine seu corpo por completo e se oferece como sacrifício para acabar de vez com a Guerra, pedindo que seus amigos o matem e levem o Deus do Submundo junto com ele.

Ainda que seja “puro”, Shun também possui falhas humanas

Como já dito anteriormente, Shun de Andrômeda odeia lutar e tenta poupar seus inimigos à todo custo. Mas durante o anime inteiro existe uma exceção para isso. Shun tem o desejo de vingança em um momento da sua jornada, que é quando encontra com o cavaleiro Afrodite de Peixes. Afrodite foi o responsável pela morte do Cavaleiro Albion (mestre de Shun) e pela destruição da ilha de Andrômeda, e Shun jurou vingança. Mesmo que pareça impossível de acreditar, o cavaleiro sucumbe ao desejo de vingança e pela primeira vez mostra seu verdadeiro poder diante de uma batalha. É revelado que Shun possui um poder ainda maior quando não utiliza sua armadura de Andrômeda, o que nos mostra o quão virtuoso é o cavaleiro, uma vez que poderia ter derrotado diversos oponentes utilizando sua força máxima.

Pra finalizar…

Estamos acostumados a associar força aos traços masculinos de violência e frieza. No caso dos Cavaleiros do Zodíaco esses traços são ainda mais exaltados, uma vez que a única missão que os defensores de Atena possuem é de derrotar outros inimigos. É impressionante que em meio a diversos personagens um deles tenha traços tão característicos e que adicionem tantas camadas de profundidade sobre a sua identidade. Você pode até não gostar do Shun, mas precisa admitir que ele merece respeito.

Shun é uma quebra de esteriótipos de diversas maneiras possíveis, e justamente por isso é um dos personagens mais valorosos das obras do grande Masami Kurumada.

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One Response

  1. Sidnei Bruno disse:

    Encantado com essa visão ímpar sobre o Shun =]

    Desde os 5 anos ele era meu cavaleiro favorito, com essa idade não tinha preconceito por sua sensibilidade e não lembro se eu era zuado por curti-lo. Conforme eu cresci desenvolvi preconceitos e ficava reticente principalmente com seus gritos e com o ocorrido na casa de libra, mas mesmo assim ele continuava o meu favorito, via uma força nele que não sabia explicar, mas o achava muito foda, sobretudo sem a armadura. O dia em que descobri que ele era a reencarnação de Hades aí pronto, fui ao delírio rs.

    Hoje procuro desconstruir vários preconceitos e cagações de regra que nutri por toda minha vida, e esse texto me ajudou muito a entender a fodacidade do Shun e ver que tenho muita coisa em comum com ele.

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