IndieVisível,Jogando a Sério

Ok, já deu

2 mar , 2016  

Sério.

Quando eu criei o IndieVisível imaginava o site como uma fonte de artigos críticos sobre o mercado de jogos e a indústria, falando sobre os pontos monetários, de inovação e game design.  Foi aí que me toquei que esse tipo de coisa é importante sim, mas talvez não seja a mais importante. A primeira vez que tive um insight sobre um aspecto mais crítico dos videogames foi com o lançamento do Hatred.

Pela primeira vez eu fiquei verdadeiramente horrorizado com um pessoal que acreditava que a violência não significava mais nada, e que ela era “comum”. Mesmo se fosse violência gratuita, sem muitas razões ou contextos. Simplesmente por existir.

Veja bem, eu desenvolvo jogos desde 2012 e sempre me preocupei em buscar aprendizado técnico. Então sempre procurei artigos de game design, balanceamento de dificuldade, melhores técnicas para otimização do jogo, como contar uma história de maneira atrativa, etc e tal. Mas por muito tempo eu nunca me questionei acerca das mensagens passadas pelos meus jogos. Eu nunca me questionei qual o valor que minhas obras artísticas poderiam trazer pra sociedade. Uma vez que aprendi que o jogo é um produto cultural, era difícil pra mim avaliar o valor das coisas que eu buscava construir.

Também não tinha um pensamento crítico sobre os jogos que eu jogava. Mesmo aqueles que tinham valores incríveis enraizados em sua história e game design. Eu não tinha a consciência de que apesar de não saber o valor cultural de um jogo, os grandes produtores sabem. Eles sabem do peso que suas obras tem quando são criadas. Eles sabem do impacto que um jogo tem no seu lançamento pra construção (ou desconstrução) ética e moral dos jogadores.

Quando eu finalmente descobri o poder dos jogos pra construção de valores sociais, fiquei abismado com algumas obras das quais eu gostava. Quer dizer, sempre soube da profundidade que o Bioshock possui, mas nunca soube como correlacionar todas as coisas que ele mostrava com a nossa realidade. Nunca tinha parado pra pensar no peso das ideias políticas que o jogo mostra. Nunca refleti sobre a verdadeira mensagem que era passada ali. Quando eu descobri, fiquei ainda mais fascinado.

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Com isso eu quero dizer que por ser uma mídia tão poderosa (em termos de popularidade), os jogos possuem a capacidade de (re)construir diversos valores sociais através das mensagens passadas de maneira direta ou indireta. Que podem fazer com que uma pessoa reveja seus valores absorvidos desde nascença mas que não fazem sentido – tal como racismo, homofobia, gordofobia, machismo, etc.

E que esse não é um pensamento só meu. As produtoras também já se ligaram nisso e estão engatinhando pra fazer sua parte. Seja com a inclusão de um um personagem homossexual num jogo de RPG, ou a inclusão de um personagem gay num jogo de luta como um dos protagonistas, ou pela recente inclusão de times femininos num jogo de futebol aclamado.

Apesar de parecem ações óbvias e necessárias, quando falamos de mercado, as coisas não funcionam exatamente assim. Existem variáveis muito importantes relacionadas à vendas, e jogos com esse tipo de inclusão costumam ter problemas com o público. Qual a razão?

O público gamer é escroto pra caralho. Não é exagero.

Talvez essa minha afirmação seja devido ao imenso contato que tenho com esse pessoal, ou talvez seja simplesmente porque eles decidem permanecer afundados em ignorância mesmo com diversas publishers e produtoras tentando mostrar que esse não é o caminho.

Agora, por que o título desse artigo?

Porque pior do que o público que consome essa mídia, são os desenvolvedores que produzem. Não somente os grandes, mas os médios, os pequenos e os indies (issaê, bando de pobretão).

Eu tenho acompanhado diversos projetos que são lançados diariamente em grupos e fóruns. São jogos de todo tipo: corrida, FPS, RPG, Plataforma, Puzzle e por aí vai… E todos caem no mesmo abismo: a maldita produção estereotipada.  Já ficou batido falarmos sobre a importância de tratar minorias. Já é uma preocupação mundial. Como não tenho tanto contato com desenvolvedores do exterior quanto tenho com os do meu país, então não me compete falar sobre isso à nível internacional. Mas no nacional…

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Será que a Level Up fez uma propaganda machista ou a coitadinha só queria incluir a representatividade feminina nas suas propagandas?

Tem desenvolvedor falando sobre a importância da representatividade. Falando sobre a importância do feminismo. Tem discussões em fóruns sobre críticas aos padrões de beleza dos jogos. Tem muita coisa rolando, todo mundo dando sua opinião.

E o que me assusta é que produtores de conteúdo cultural também estão afundados na ignorância. Que as pessoas que tecnicamente deveriam compreender mais sobre certos assuntos pra construir uma mensagem são as mesmas que acreditam que lugar de mulher é frente ao tanque. Que personagens homossexuais não podem ser inseridos em um jogo porque isso pode afetar muito o desenvolvimento da trama. Que seguir o modelo hipersexualizado de personagens femininas é o único caminho, e que todo protagonista tem que ser exatamente igual ao de trezentos jogos já feitos anteriormente.

Acreditam que não dá pra fugir das fórmulas prontas, e que nem faz sentido fazer esse tipo de coisa. Que as críticas da galera sobre esses assuntos não passa de barulho sem sentido e que não existe preconceito no meio gamer.

Ok, já deu esse argumento.

Tem mulher que sofre ameaça de estupro e até morte por jogar MMO – aliás, é um terreno onde o respeito não tem vez. Tem gente falando no quanto a Netherrealm vacilou em mudar completamente a história de um personagem (oi?) ao “mudar” sua sexualidade (como se isso não tivesse sido definido na construção do personagem). E claro, tem MUITA personagem pelada em jogo pra atender o fetiche da mulecada. E nada disso é problemático. Na verdade, é motivo pra piada.

Se você como produtor de cultura acredita que suas ações são irrelevantes e indiferentes, pois bem, você contribui pra que esse cenário nunca mude. Pra que permaneçamos num mundo cheio de problemas que nunca são solucionados porque “tal empresa faz assim”.

Acredite: se empresas grandes não se arriscam é porque não querem perder a chance de faturar milhões. E se incluir um personagem homossexual ou do sexo feminino representa perder esses milhões, é porque existe algo de muito errado. Seguir os padrões aceitando que o preconceito é “comum”, que é “normal” apenas faz com que todos nós continuemos nesse ciclo sem fim onde o diferente não é retratado e por isso é estranho, pouco aceito e pouco rentável – o que fará com que vejamos cada vez menos personagens “diferentes” nos jogos.

Sacou? Já deu.

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