IndieVisível,Jogando a Sério

O Brasil dos Indies – Uma opinião sobre o crescimento dos gamedevs BR

2 mar , 2016  

No último domingo, dia 11/10, tive a oportunidade de participar da BGS (Brasil Game Show). Sendo a maior feira de jogos da América Latina já era de se esperar vislumbrar coisas incríveis.

O lugar é imenso e repleto de atrações. Se você é fã de jogos, sejam eles analógicos ou digitais, com certeza ficaria perdido num lugar desses. O evento conta com muitos estandes de todos os tamanhos e para todos os públicos. Uma boa parcela do público procura pelo menos jogar por 5 minutos os lançamentos das grandes produtoras de jogos (esse ano contou com muitos títulos bons: Street Fighter V, Assassin’s Creed Syndicate, Mirror’s Edge: Catalyst, Star Wars: Battlefront, Halo 5, Call of Duty: Black Ops 3 e vários outros), mas quem quiser apenas prestigiar todos os estandes também consegue uma programação bem divertida. Você podia, por exemplo, visitar o Museu do Videogame, que trazia uma coleção imensa de consoles de todas as épocas.

Se essa opção não te chamou muito atenção, que tal então ver a galera que faz sucesso no Youtube? Venom, Zangado, Malena, Os Irmão Piologo e muitos outros marcaram presença no evento esse ano. E não só isso: a BGS também contou com a presença de grandes nomes do desenvolvimento de jogos no mundo, entre eles o Phil Spencer (Chefe da Divisão do Xbox) e o Yoshinori Ono (Produtor do Street Fighter).

Agora, se você também for desenvolvedor de jogos, muito provavelmente vá se interessar muito mais pelo mesmo espaço que eu passei a maior parte do tempo: o Pavilhão Indie. Antes de falar sobre as minhas impressões, é importante dividir algumas coisas importantes com você, caro leitor.

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Quando eu comecei a desenvolver jogos era difícil acreditar no cenário brasileiro. Apesar dos avanços significativos entre 2010 até meados de 2013, ainda era complicado enxergar como o Brasil poderia se estabelecer como uma potência no setor de desenvolvimento de jogos. E as razões sempre foram diversas: falta de investimento, falta de representantes importantes no setor, falta de iniciativas de apoio (sejam campeonatos ou espaços pra desenvolvedores trocarem cartões), enfim! O dia dos indies no Brasil parecia muito distante. Ainda assim eu carregava certa esperança.

Ora, se Renato Degiovani conseguiu desenvolver o primeiro jogo digital brasileiro em 1981 para nos fornecer uma porta de entrada, então uma hora tínhamos que passar por ela com louvor. Mesmo que levasse muitos anos. Além disso eu também carregava minha esperança em estúdios brasileiros que inspiravam meu trabalho. Em 2012 eu via o Oniken (do estúdio Joymasher) como um dos jogos brasileiros mais importantes pro nosso cenário e um dos mais bem desenvolvidos, até então.

Havia também o Mr. Bree, da Taw Studios – estúdio que conseguiu até ganhar um prêmio de melhor jogo online no Big Festival. Tinha também o Cangaço Wargame (do estúdio Sertão Games), que era uma inspiração imensa pra nós que começávamos a desenvolver o Cangaceiros vs Zumbis. Tinha também um estúdio de Brasília que em poucos anos tornaria-se um dos nossos maiores representantes: a Behold Studios.

No SBGames 2012 eles tinham uns jogos bacanas sendo mostrados, e pasmem: o primeiro jogo que tive contato desse estúdio não foi o Knights of Pen & Paper (que em pouco tempo se tornou sucesso mundial), mas sim um jogo simpático e simples, com um visual muito parecido com outros jogos mobile de sucesso na época (tipo o Angry Birds), completamente despretensioso e extremamente divertido: Save My Telly.

E por último, mas não menos importante, o estúdio que eu tinha maior apreço e admiração pelo trabalho era a Miniboss. Pra mim eles eram os melhores no que faziam, porque eu via a quantidade de paixão envolvida nos seus projetos. Eles não tinham projetos gigantescos e super ambiciosos, e talvez fosse essa simplicidade que me deixasse tão apaixonado. O primeiro projeto da equipe que vi foi o Planetary Plan C, feito especialmente pra participar de uma Jam. Mas o jogo que me fez ficar apaixonado pelo trabalho do estúdio foi o Out There Somewhere.

Apesar desses jogos citados terem uma imensa importância pro cenário de desenvolvimento de jogos daqui – em termos de mostrar como é possível fazer bons projetos- , infelizmente nenhum deles conseguiu alcançar reconhecimento mundial e colocar nosso país pra frente. O que chegou mais perto disso foi o Knights of Pen & Paper, mas na época “disputava” seu sucesso com diversos jogos mobile. Era um grande passo, sem dúvidas; mas pra mim, parecia que ainda faltava um reconhecimento do público em geral.

Faltava que o próprio Brasil soubesse da existência desses projetos ao invés de ser notícia apenas para outros desenvolvedores da área. E aí, em 2014 veio o Aritana.

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Aritana e a Pena da Harpia, da Duaik Entertainment foi importantíssimo. Primeiramente pela sua qualidade absurda, e segundo por ter surgido simplesmente do nada, causando um impacto ainda maior do que faria se tivesse sido mostrado anteriormente durante a fase de desenvolvimento. O jogo foi apresentado durante o Big Festival de 2014 (que foi muito maior que sua edição anterior, em 2012) e levou o prêmio de Melhor Jogo por voto popular. Daí pra frente o jogo alcançou um público cada vez maior, sendo assunto recorrente em fóruns de desenvolvimento e sites que cobrem o cenário de jogos – não só brasileiros.

As coisas pareciam mudar aos poucos. Diversos estúdios apareceram, muitos projetos começaram a ser desenvolvidos e equipes que nem imaginávamos que existiam estavam ali desenvolvendo projetos incríveis. Diante desse cenário, no ano passado o BGS decidiu abrir um espaço para desenvolvedores indies e inaugurou o Pavilhão Indie.

Infelizmente a iniciativa não cumpriu com o esperado. 12 estúdios brasileiros eram esperados para mostrar seus trabalhos, mas o evento contou com aproximadamente 7 equipes. O espaço era pequeno e realmente não parecia ter sido muito planejado. Ainda assim, aqueles que puderam mostrar seus jogos tiveram um bom retorno com a imprensa e o público, e todos nós ficamos aguardando para ver como a BGS se sairia na edição de 2015…

… E então aconteceu.

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O Pavilhão Indie deste ano foi muito maior que sua edição passada, contando com 22 estúdios com jogos diversificados. Havia jogos de todos os gêneros e de todos os níveis, dos gigantescos até os pouco conhecidos. Jogos como Eternity e Guerreiros Folclóricos mostram o crescimento da capacidade de produção indie com um trabalho próximo da qualidade AAA.

Ainda que distante da entrada do evento e dos estandes gigantescos das grandes produtoras, a área indie tinha movimento constante e pessoas extremamente curiosas para conhecer mais sobre os projetos. Adultos ou crianças, todos ficavam impressionados com os jogos, sempre conversando com os desenvolvedores para saber mais sobre o mercado e mostrando entusiasmo com o cenário independente.

Mas a participação dos indies na BGS só serviu pra reforçar o que 2015 vem mostrando desde o começo: nossos desenvolvedores estão ganhando força. Esse é sem dúvidas o ano mais importante para todos os produtores de jogos brasileiros. Este ano tivemos o lançamento de três grandes títulos que fizeram sucesso mundial: Toren, Chroma Squad e Odallus. Agora perto do fim do ano tivemos o Relic Hunters (que é gratuito, então apesar de não ser um sucesso de vendas é um sucesso de público, o que já é imensamente importante pro Brasil), o Horizon Chase (que além de ser uma homenagem brilhante aos jogos de corrida retrô, ainda acompanha a trilha sonora do compositor do Top Gear) e a pouco tempo o Finding Monsters, do Black River (que conta com uma equipe composta por produtores experientes, incluindo a Thais Weiller da Joymasher e o Beto Alves, que trabalhava na Aquiris).

Um dos criadores do Aritana, Pérsis Duaik é agora o novo representante da ID@Xbox no Brasil. Há uma chance do Ministério da Cultura financiar estúdios brasileiros a criarem jogos com conteúdo nacional. Foi lançado o SPCine, que também tem uma preocupação com o setor de jogos. Ainda falando sobre apoio do Governo, temos a iniciativa do Grupo de Trabalho de Games, que reúne: o Ministério da Cultura (MinC), as Secretarias de Políticas Culturais (SPC) e do Audiovisual (SAv), a Agência Nacional do Cinema (Ancine) , a Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo (SP Cine), o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o Ministério da Educação (MEC), a TV Escola, o BNDES, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e, por último, todas essas entidades trabalharão em conjunto com a Associação Brasileira de Desenvolvedores de Jogos Digitais (ABRAGAMES).

Com isso estou apenas citando os maiores projetos de território nacional, mas a realidade é que existem projetos que estão acontecendo e nem sequer sabemos das suas conquistas. Um exemplo é o Vida, projeto do Flavio Creasso que vem sendo desenvolvido há bastante tempo mas que tem previsão de lançamento da sua primeira versão pra 2016. O jogo possui uma qualidade tão alta que é considerado o “Diablo Brasileiro“. Recentemente o estúdio Ludic Side conseguiu a façanha de fazer com que o seu jogo fosse um dos mobile games mais jogados em 21 países diferentes.

E as o desenvolvimento de novos projetos não para.

Eu não sei o que o ano de 2016 nos reserva, honestamente. Pode ser que o Brasil consiga menos conquistas do que esse ano de 2015 (que tá sendo maluco), o que eu acho improvável. Mas independentemente das dificuldades que nós ainda enfrentamos, uma coisa é fato: este é O momento para o desenvolvimento de jogos no Brasil.

Você está presenciando o Brasil dos Indies. Seja muitíssimo bem vindo!

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