IndieVisível,Jogando a Sério

MobileGame Wars: Ataque dos Clones

2 mar , 2016  

Por muito tempo eu não fiz parte das estatísticas dos jogadores casuais de jogos para celular. Toda vez que me falavam sobre um jogo novo que foi lançado e já tinha virado febre entre meus amigos eu não podia testá-lo também por falta de um dispositivo que me permitisse experimentar esses jogos. Acho que foi em 2013 que eu comprei o meu primeiro celular com “suporte” aos aplicativos mobile de sucesso que tanto bombavam entre a comunidade. E pra minha infelicidade, eu cometi o incrível erro de adquirir um Nokia Lumia 520.

Além do problema evidente de um sistema nada funcional, o Windows Phone tinha algo terrível que eu fui descobrir só depois de adquiri-lo: sua loja limitadíssima de jogos.

Para mim aquilo era um pesadelo. Eu tinha adquirido o celular PRINCIPALMENTE pela necessidade de me atualizar com títulos mobile de sucesso e estava impossibilitado de fazê-lo porque diversos desenvolvedores simplesmente não portavam seus jogos pro sistema da Microsoft. E aí eu era obrigado a me contentar com os pouquíssimos títulos de qualidade que apareciam de vez em quando na loja. E isso durou por um bom tempo.

Até que eu comecei a ver que ter o Windows Phone não era o motivo do meu desespero.

Alguns amigos próximos mostravam pra mim o título que estavam jogando e me explicando como eles eram incríveis. E toda vez que me passavam o celular pra experimentar o jogo a minha reação era quase sempre a mesma: “Ah, já vi um parecido”.

Em pouco tempo eu me toquei que o Windows era repleto de clones de jogos famosos. E quando eu digo clone eu não me refiro a jogos parecidos, mas clonados mesmo para que os usuários dos celulares Nokia tivessem acesso à esses títulos. Por exemplo, se você quisesse cuidar do Pou (aquele bichinho estranho do Android que parece um trocinho), infelizmente se frustraria na Windows Store, porque ele não existe lá. Todavia, podia baixar um equivalente ao Pou, o seu primo distante Mou, que era a mesma coisa, só que pra Windows.

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Não dava pra treinar suas habilidades do ninjutsu contra frutas com o Fruit Ninja, mas rolava instalar o AE Fruit Slash, que é a mesma coisa. Quer saber por quantos canos consegue passar sem ser atingido controlando um pássaro? Bem, nas terras da Microsoft você não vai conseguir jogar o famoso Flappy Bird. Mas pode optar por jogar o Sleepy Birds, que tem até um pouco mais de capricho nos cenários usando assets próprios.

Ou seja: eu estava experimentando títulos de outras plataformas sem nem perceber. E apesar de achar a Windows Store limitada, ainda assim ela conta com muitos, mas muitos jogos. E eu comecei a experimentar boa parte deles. Principalmente os mais despretensiosos, que eram aqueles que capturavam grande parte do público com partidas rápidas que podiam durar menos de um minuto. Foi legal por um tempo.

Até que enjoou. E a tarefa de ser surpreendido com um jogo mobile começou a ficar mais difícil, porque como já tinha jogado os principais títulos da plataforma, tudo que eu conseguia encontrar agora eram cópias. Diversos títulos bem avaliados, baixados por vários usuários e que eram iguais à outros jogos que já tinha experimentado antes. Boa parte deles só mudando a parte gráfica e talvez uma ou duas interações, mas o core do jogo era igual a outros títulos. E ainda assim eles eram os melhores da plataforma.

Acha exagero? Já jogou Sonic Dash? Eu joguei. E por um bom tempo. Minha namorada e eu disputávamos recordes. E era essa a principal diversão do jogo, um fator externo que os designers não previam. O jogo em si tinha um gameplay que podia te prender por um ou dois dias, mas depois disso era basicamente mais do mesmo. As motivações que o jogo te dava para permanecer jogando ele não eram tão importantes e a falta de objetivo acabava fazendo com que todo o gameplay perdesse valor.

E mesmo assim tinha muitos títulos que traziam EXATAMENTE a mesma coisa e sendo imensamente baixados. Vale levantar aqui também que o gênero endless run acompanha o mobile desde o início. Tivemos o Temple Run, que era bem chatinho. Depois fizeram o Subway Surfers, que levou esse gênero pra outro nível. E daí pra frente a maior preocupação era em mudar os gráficos e ganhar o público pela temática e não pelo gameplay. Daí vieram jogos tipo o Sonic Dash, Minion Rush e Spider Man Unlimited.

Não quero dizer com isso que qualquer um desses jogos citados seja ruim. Eles possuem seu público e são bem aceitos. Extremamente baixados e bem avaliados. Um sucesso completo. Além disso eles possuem algo importante para o mercado: lucro. Todos esses jogos tem algum tipo de personagem, cenário ou habilidade que precisa ser destravada e pra isso o jogador pode optar por jogar o game sem parar por um período gigantesco ou investir R$ 10,00 no jogo e conseguir várias vantagens.

Mas como jogador me sinto frustrado. Me chateia saber que o dinheiro se tornou algo tão importante a ponto de limitar uma indústria criativa. Quando falamos de grandes companhias isso até é justificável, uma vez que essas empresas gastam uma quantia de dinheiro considerável pra fazer seus jogos alcançarem o público, portanto esperam o retorno. Mas e quanto as produtoras menores? Elas optam por desenvolver jogos idênticos a títulos de sucesso esperando  o mesmo retorno de jogadores, e isso é um erro tremendo.

Produtoras pequenas não possuem o dinheiro necessário pra estruturar uma campanha de marketing tão bem elaborada para alcançar diversos usuários. E muitas vezes estão tão preocupadas em copiar um jogo de sucesso que nem sequer possuem um produto de qualidade, algo com uma identidade própria. É só mais um clone. Um em meio a vários outros de uma loja saturada de títulos.

Por que então não tentar se aventurar em criar algo diferente? Os produtores podem sim se inspirar naqueles títulos importantes pra eles. Isso não faz do jogo deles menos criativo. Mas esses jogos devem trazer elementos diferentes. Eles precisam ter a sua própria identidade. De alguma forma eles tem de passar ao jogador a sensação de explorar algo novo. E é claro, é importantíssimo que sejam jogos bem construídos.

Ainda no período em que eu explorava a Windows Store sem muitas esperanças, encontrei dois títulos que me fizeram perder boas horas de gameplay: Phoenix Force (que depois eu descobri que era um projeto brasileiro) e Heroes of Larkwood, que são dois jogos claramente inspirados em diversos títulos de sucesso. Mas são originais. Possuem algo que é só deles. E isso é importante.

Existem outros bons jogos pra plataforma mobile. Hoje em dia eu me livrei do pesadelo chamado Nokia e ficou muito mais fácil encontrar alguns títulos legais. Ainda assim, a mim parece que falta um pouco mais de ousadia e criatividade dos desenvolvedores ao invés de só optarem por seguir fórmulas feitas no mercado.  Não quero dizer com isso sobre invalidar a importância dos desenvolvedores compreenderem sobre a indústria. Eles DEVEM se importar com o mercado e o lucro de seus jogos. Mas ei, há tantos públicos a serem explorados, não é?

Por favor, produtores, atendam a esse público órfão.

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