IndieVisível,Jogando a Sério

Criatividade, diversidade e as amarras sociais

2 mar , 2016  

Provavelmente você acompanhou o caso do garoto Ahmed Mohamed que saiu da escola detido e algemado por construir um relógio. O objeto foi confundido pela professora com uma bomba. Mesmo depois de o “mal-entendido” ser solucionado, o garoto foi punido com três dias de suspensão. Belo estímulo, não acham?

Já é genial quando um adulto leigo consegue construir qualquer tipo de dispositivo. Em se tratando de uma criança isso deveria ser digno de nota, não de escárnio ou castigo. O garoto construiu um relógio e é algemado, sai escoltado da escola. Enquanto isso, outro menino em idade escolar recebe várias honras após construir um reator nuclear. Nada de prisões, meus amigos. Nada de suspensão. Ele é um prodígio!  A diferença entre ambos é que um deles é norte-americano e branco enquanto o outro é mulçumano.

A indústria criativa pode ser um terreno hostil. Por mais que a diversidade seja enaltecida no meio artístico, a realidade é que o grupo detentor da maior fatia desse mercado é bem homogêneo: homens brancos, cisgêneros, heterossexuais, católicos/protestantes e acima de 30 anos. Mulheres? Que piada! Negros e mestiços? Nem pensar! Diversidade sexual? Apenas como fetiche.

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A arte dos demais grupos se transforma em arte marginalizada, relegada a segundo plano. Para quem detém o poder de fala, tais grupos precisam ser silenciados ou, pelo menos, escondidos tanto quanto possível. Explosões como o Gamergate – no mundo dos jogos -, o movimento dos Sad/Rabid Puppies no mundo literário e a criminalização do pixo, são um exemplo desse silenciamento. Quem está fora do playground não tem direito de interagir ou criar.

A criatividade é um processo que envolve capacidade inventiva, dedicação e interação com o contexto sociocultural da época. Ou seja, não deveria estar restrita à classe, gênero ou opção sexual. É uma atividade que pode (deve) ser praticada por todos. Criatividade é, em grande parte, uma soma de referências e estímulos. As referências de uma criança branca da classe média são totalmente diferentes das que uma criança negra da favela possui. Aliás, me diga em quantos heróis/protagonistas esta última pode se espelhar? Quantas de nossas produções atuais oferecem a essa criança o necessário aparato reflexivo? De verdade, você acha que Nathan Drake causa tanto impacto nessa criança quanto o Static Shock? Eu acho que não. E o motivo é bem simples: identificação.

A atividade criativa deveria ser libertadora. Em lugar disso, ela ainda promove a segregação e quando muito, relega os movimentos não elitistas à categoria de “arte marginal(izada)”. Enquanto produtores de conteúdo, não podemos nos esquivar da nossa responsabilidade em criar e transmitir referências para todos. Enquanto desenvolvedores/jogadores precisamos estar sempre abertos a todo tipo de experiência. E – acreditem em mim – o mundo é muito maior que o nosso quarto.

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