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Quem são as mulheres gamers?

29 fev , 2016  

A mim, parece estranho fazer esse tipo de questionamento porque é tão óbvio quem são as gamers (jogadoras, desenvolvedoras, produtoras, etc), onde moram, como se alimentam e tudo mais. Porém, acabei percebendo que o assunto não é tão óbvio para uma parcela da comunidade. Para uma grande parcela, aliás! Eu poderia fazer um artigo embasado em fatos, estatísticas, relatos, infográficos. E, mesmo que eu fizesse isso, muitos não entenderiam. Então, hoje deixo de lado a pesquisadora que sou e falo com a voz de quem vivencia: a voz de uma mulher.

Vamos usar como ponto de partida a expressão “mulher gamer”. Que estranho usar esse termo, considerando que se é um homem no comando do joystick ninguém precisa caracterizá-lo como “homem gamer”. Ele é um jogador. Um gamer. E isso basta. Mas quando uma mulher se aventura a pôr os pés nesse mundo, tudo o que ela faz ou diz necessita de um detalhe sem o qual sua experiência e conhecimento são inválidos: ela precisa provar. Precisa provar que joga. Precisa provar que joga bem. Precisa provar que já zerou um jogo. Precisa provar que não está ali apenas para chamar atenção. Será que é tão difícil acreditar que uma mulher joga apenas para se divertir?! Já diria Cindy Lauper, “girls just wanna have fun!”.

girls-just-wanna-indievisivel

Por isso meus caros amigos e amigas, eu sinto desapontá-los, mas uma mulher não joga porque quer chamar atenção (e ser constantemente intimidada). Uma mulher joga pelo mesmo motivo que um homem joga, pelo mesmo motivo que um cachorro jogaria se soubesse como: pelo entretenimento. Se ela quisesse arrumar um namorado, pediria a ajuda de uma amiga. Se ela quisesse mostrar os peitos, mostraria para o cara/mina/whatever que bem entendesse e não no chat de um MMO. Se ela quisesse chamar atenção pintaria os cabelos de rosa-choque com bolinhas verde-limão. Amigos, por quais motivos vocês jogam? Então! Por  que essa mania de separar preferências por gênero (isso é coisa de menino, isso é coisa de menina, ZzzzZZ!) quando no fim das contas a única coisa que somos é humanos.

Há um movimento estranho, principalmente na internet, de que tudo que não é dito, feito, construído ou revogado por um homem (branco, cis, heterossexual) não tem o menor valor. O movimento é ainda mais forte em locais culturalmente dominados por homens (brancos, cis, heterossexuais). E penetrar nesses espaços, compreendê-los, torná-los parte da própria rotina é uma afronta quando feito por qualquer tipo de minoria. Por que hoje eu falo sobre as mulheres porque sou uma mulher e só posso representar a mim mesma. Mas a discussão teria peso semelhante – ou até maior – se discutíssemos quem é o “gamer homossexual” ou o “gamer trans” ou o “gamer negro”. E se você não pensa dessa forma, só posso concluir que o único motivo para tanto é você nunca ter sido reprimido em seu espaço. (Quem vier me falar de “repressão feminista/gay/trans/negra” faça o favor de abandonar meu artigo imediatamente).

Voltando às “mulheres gamers”, eis um pequeno exemplo do que acontece quando nos dispomos a participar desse universo e debatê-lo:

 

brianna-wu-indievisivel

Leia aqui o artigo completo (http://epoca.globo.com/vida/noticia/2014/11/bbrianna-wub-ameacas-de-morte-e-estupro-ja-fazem-parte-do-meu-trabalho.html)

 

anita-sarkeesian-indievisivel

Leia aqui o artigo completo (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/09/140903_games_feminismo_ameacas_cc)

 

zoe-quinn-indievisivel

Leia aqui o artigo completo (http://www.vice.com/pt_br/read/zoe-quinn-contou-como–ser-alvo-de-todos-os-trolls-da-internet)

Isso é apenas uma pequena amostra do que acontece, e que tem repercussão por acontecerem com mulheres “famosas”. Mas existem outras vozes, desconhecidas, que passam pelo mesmo tipo de opressão simplesmente porque sentem prazer em jogar e desejam fazer disso parte da sua vida. Mulheres comuns. A sua colega de trabalho. A sua namorada. A sua irmã. São mulheres como elas que serão ameaçadas, trolladas, desmotivadas. E se o seu argumento for “não ligo, elas não se interessam por isso” eu te pergunto: Por que elas não se interessam? Ou por que elas desistiram de se interessar? Por que existem tantos homens jogando e sendo ouvidos ao falar sobre jogos, mas tão poucas mulheres? Será que TODAS as mulheres do mundo não tem habilidade/aptidão/interesse/conhecimento?

Nós nos comunicamos virtualmente em uma quantidade e velocidade absurdamente maiores que há dez anos. A questão não é que o preconceito seja hoje maior do que há dez anos: existe apenas mais espaço para difundir e estimular o preconceito. E, como diz Freud em suas teorias de comportamento coletivo, a massa não pensa, ela age instintivamente na tentativa de não ser expulsa do grupo. A voz de um se torna a voz de muitos, sem que esses “muitos” precisem pensar no que dizem. Mas dizem. Repetem. E há consequências. E embora, na hora que elas surjam, vocês queiram fugir ou se esconder atrás do discurso de que “era apenas uma brincadeira”, de que “o mundo está politicamente correto demais”, a culpa é de todos. Quando alguém é ameaçado de morte, quando alguém precisa se esconder para não receber correspondências doentias, quando alguém tem a segurança da família posta em risco, a culpa é de todos.

E, da mesma forma que essas vozes cheias de preconceito repetem seu discurso desprovido de argumentos, muitas outras se levantam pela permanência das mulheres na cultura gamer, pela sua participação, para aplaudir ou criticar (construtivamente) suas obras como fariam com qualquer outra porque antes de mulheres elas são pessoas. E pessoas merecem respeito.

Então, apenas para reforçar a questão, vou dizer a vocês não quem são as “mulheres gamers”, mas sim o que elas NÃO são: Elas não são objetos de decoração. Elas não são “apenas um par de peitos”. Elas não são “depósitos de porra”. Elas não são pessoas procurando atenção. Elas não são mulheres desesperadas por um namorado. Elas não são incapazes. Elas não são burras.

Elas são mulheres. Elas são seres humanos. Elas são diversas. E, querendo você ou não, elas jogam.

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