IndieVisível,Jogando a Sério

Mercado Criativo e Jogos – O Panorama Brasileiro

29 fev , 2016  

O termo “economia criativa” ou “indústria criativa” despertou uma grande hype nos últimos anos. Esses conceitos, no entanto, não são recentes: foram definidos na metade dos anos 1990 pelo British Council para descrever indústrias baseadas na criatividade e talento individual, com grande potencial para geração de empregos, utilizando-se da propriedade intelectual para tanto. Entre essas indústrias criativas estão, entre outros, o mercado de moda, o mercado de artes e antiguidades, a produção de filmes e vídeos, e – claro – o design de jogos.

 

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Porém, essa “grande novidade” de que os jogos fazem – sim – parte de um sólido contexto econômico parece não ter chegado com força em solo brasileiro. Em uma rápida pesquisa no nosso amigo Google, mesmo combinando toda a sorte de palavras-chave em que consegui pensar, a correlação jogos – economia criativa ainda é rasa e pouco abordada. Aparentemente os jogos ainda são sinônimo de “entretenimento vazio”, ficando em segundo plano toda a multidão criativa por trás da criação de um game. Pois é, galera. Existe gente por trás disso tudo: profissionais que dispendem muito tempo e energia nesse processo. Considere apenas que a indústria de games é caracterizada por uma constante: a mudança. Novas tecnologias, novas rotas de mercado, novas exigências na experiência do usuário são apenas uma amostra do que rola nos bastidores de produção dos jogos.

Falando apenas em termos nacionais, contamos com uma ainda tímida – porém produtiva – indústria de jogos. De acordo com dados da Abragames, existem em torno de 200 empresas de jogo brasileiras, 45 cursos na área – entre técnicos, superiores e de pós-graduação – estando o Brasil na 4ª posição entre os maiores mercados consumidores de jogos.  Quanto à participação desses produtores, um relatório feito pelo BNDES no ano passado mostra que a maioria dos jogos produzidos no Brasil visam o mercado internacional, sendo produzidos em inglês. Por quê? Infelizmente, vivemos em uma cultura que desvaloriza aquilo que é  produzido localmente. Eu, por exemplo, tive por um longo tempo um sério preconceito com o cinema nacional (e fui devidamente catequizada, é claro). Quer alguns exemplos de jogos nacionais bacanudos?

O jogo Aritana e a Pena da Harpia foi vencedor na categoria “Voto Popular” no Big Festival 2014

Dungeonland, produzido pela Critical Studio (RJ) contou com o apoio da publicadora americana Paradox

Toren é um dos primeiros jogos digitais brasileiros a receber apoio da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura

Como fã de Banguela e sua turma eu não poderia deixar de citar Dragons: Wild Skies, produzido pela Aquiris Game Studio em parceria com a Cartoon Network Games

E esses são só alguns exemplos, galera. O mercado indie brasileiro tem muitas ideias geniais, para quem tiver a capacidade de abrir mão do mainstream.

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Para que exista uma forte indústria criativa no Brasil são necessários:

  1. Ideias criativas (obviamente)
  2. Apoio para a execução dessas ideias.

Certamente as ideias não são um recurso em falta no cenário nacional. Mas e quanto ao apoio? A verdade é que ele é ainda muito latente – isso se considerarmos que atualmente existem cerca de 46 milhões de brasileiros ativos na web – vivendo entre eles uma população de 76% de jogadores.

A Lei nº 8313/1991 – mais conhecida como Lei Rouanet – instituiu diretrizes de apoio à cultura nacional e à valorização das expressões nacionais. A Lei não compreendia o apoio ao desenvolvimento de jogos até 2011, quando foi fixada a Portaria nº 116/2011. Na prática, a Lei Rouanet não facilitou as coisas para os desenvolvedores. Além da enorme burocracia para enviar um projeto, os patrocinadores não podem ter intenções comerciais com o jogo desenvolvido. O que isso significa? Que a empresa que patrocinar determinado jogo não poderá vincular sua marca ao game. E convenhamos que não há no empresariado mundial tamanho grau de filantropia.

Entre os esforços mais recentes estão o da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que lançou no final de janeiro a SP Cine – Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo. O LEIA – Laboratório de Inovação e Experimentação Audiovisual servirá como espaço para o desenvolvimento de games.

Em entrevista recente, o Ministro da Cultura Juca Ferreira afirmou que considera os games como parte da nossa cultura e que acredita que o governo ocupará parte de seus esforços em projetos na área. Questionado sobre a possibilidade de implementar políticas de estímulo para os jogos digitais, o Ministro respondeu não ter a intenção de “brincar de estimular o setor”. Suas propostas deverão ser para coisas concretas na área.

Na tentativa de estimular o setor, o Ministério das Comunicações desenvolveu uma ação cujo principal objetivo é incentivar o desenvolvimento de apps e serious games que tenham utilidade pública. Focando a ação na plataforma mobile, projeta-se que pelo menos 45 apps ou games sejam financiados.

O interesse mediano e descontínuo do Governo em estimular os desenvolvedores – bem como os inúmeros entraves burocráticos para a submissão de projetos – é, sem dúvida, uma das principais barreiras enfrentadas. Por outro lado, talvez falte da parte dos desenvolvedores a lábia necessária para buscar financiamentos no setor privado – convencido apenas quando todas as informações apresentadas resultam em alguma vantagem – financeira ou não – para a empresa.

O mercado criativo já é uma realidade e não poderá ser ignorado por mais muito tempo. E, na falta de apoio das políticas adequadas, a sociedade colaborativa nascida com a expansão da web pode e deve ser uma alternativa. Desenvolvedores, se aproveitem das vantagens que o crowdfunding lhes oferece! Uma vez que as pessoas estão convencidas de que a sua ideia é boa, a ajuda virá de todas as formas. Já não podemos esperar que as soluções sejam inteiramente decididas em gabinetes governamentais e salas de reunião: façamos a nossa parte para transformar o cenário da indústria criativa brasileira e – mais necessariamente – do desenvolvimento de jogos nacionais. Digo e repito: talento não está em falta.

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