IndieVisível,Jogando a Sério

Jogos não se sustentam somente pela ideia

19 fev , 2016  

Pra começar a explicação sobre esse tema, gostaria de compartilhar com vocês um feedback que uma vez recebi quando participei do SBGames 2012. A avaliação foi realizada pela própria banca de juízes do evento, e eu guardei com imensa gratidão.

O jogo com o qual participei foi o Cangaceiros vs Zumbis, e na época ainda tínhamos aprendido muito pouco sobre desenvolvimento de jogos (apesar de pensarmos o contrário naquele tempo).

“Trata-se de um jogo 3D em terceira pessoa tipo sobrevivência a zumbis. O ambiente foi muito bem feito, a arte bem detalhada e acabada. A trilha sonora casa bem com a dinâmica e temática do jogo. Como é um jogo em desenvolvimento, há muito espaço para melhoras. A versão 2 parece ser bem mais madura em termos de arte. O gameplay é simples e pode ser aperfeiçoado com a inserção de mais personagens, itens e objetivos. A inovação é a ambientação típica nordestina, e deve ser explorada ao máximo pela equipe, explorando mais os elementos regionais na criação das diversas fases. […] O jogo não se sustenta apenas com o tema, recomendo pensar em algum tipo de inovação em relação ao gameplay.”

Um dos elementos fundamentais para uma boa primeira impressão do jogo é a temática. Uma vez escrevi um artigo sobre quais elementos eram responsáveis por tornar um jogo interessante, baseado numa explicação dada pelo Game Designer Paul Schuytema.

O jogador, quando ainda desconhece o game, será atraído pelo que lhe é mais palpável: gráficos, sons e exemplos das mecânicas usadas em jogo. Todos esses itens são inseridos dentro de uma temática. Uma vez que o desenvolvedor junta todos esses aspectos, cria uma ideia de jogo.

ideia-pika-indievisivel

 

A ideia de um jogo pode parecer ousada, inovadora, incrível e extremamente sedutora. E é de suma importância que a ideia seja atraente, afinal, é ela que definirá se o jogador se interessa pelo jogo ou não. Parece radical? Pense bem: muitos jogos tem bons gráficos. Muitos jogos apresentam uma vasta quantidade de inimigos e muitas horas de gameplay. Existem jogos de todos os gêneros com muitas mecânicas sendo exploradas. Como é que um desenvolvedor se sobressai em meio a tantos outros? Sua ideia.

Mas é importante saber que antes de apresentar uma ideia, é recomendável que o jogo propriamente dito já esteja palpável e coerente com sua proposta para evitar grandes frustrações. E é aí que está o ponto de discussão.

Antigamente possuíamos o conceito de que jogos eram feitos por puro entretenimento, hoje em dia as coisas mudaram. Grandes desenvolvedoras fazem várias pesquisas pra saber tendências do seu público-alvo apenas pra certificar um bom número de vendas.

Além disso, algumas aproveitam-se de outros conceitos que já tenham conquistado o público para criar produtos rentáveis em cima deles. E elas são obrigadas a vender seus jogos antes mesmo que eles cheguem às prateleiras. Ou seja: vender a ideia do jogo, e não o jogo propriamente dito.

O problema é que a ideia não sustenta um jogo. O jogador quer uma experiência bem construída. Um enredo cativante e o mais importante: uma mecânica atrativa que consiga entretê-lo pelo máximo de tempo possível. O problema de ideias mal executadas acontece somente com grandes produtoras? Não.

lucius-conceitos-indievisivel

 

Ser indie não é fácil. Equipes contam com poucos recursos, pouco tempo e muito trabalho. Ser visualizado e valorizado é complicado, mas algumas equipes conseguem esse tipo de façanha com uma ideia atraente de gameplay. Foram os casos de Lucius e Amy.

Ambos são exemplos de que uma ideia “bacana” não é o suficiente pra sustentar um jogo. Amy possuia uma ideia chamativa: você teria de cuidar de uma garota durante um apocalipse zumbi e tomar cuidado consigo mesmo por também estar infectado com o vírus.

Já o Lucius, sua grande ideia era voltada ao seu enredo: você assume o papel de um garoto que descobre ser o anticristo. Ao completar seu 6º aniversário, Lucius recebe uma visita do próprio Lúcifer que lhe ordena coisas bizarras.

Pouco antes de serem lançados, os dois jogos criaram uma expectativa razoavelmente considerável em alguns jogadores devido ao conceito apresentado. Muitos queriam experimentar os jogos e saber se seriam atendidos em relação ao que esperavam dos jogos. Mas nenhum dos dois jogos foi capaz de fazer o que tinha sido proposto anteriormente.

Alguns erros grotescos aconteciam e acabavam estragando toda a experiência de gameplay. E esses erros podem ser encontrados em vários títulos independentemente do seu nível, mas o problema é a frequência que são apresentados.

Bugs, gráficos ruins, jogabilidade robótica, enredo fraco, repetitividade e falta de polimento são itens frequentemente apontados como problemas pra jogos considerados ruins. E tudo pode acontecer (e vem acontecendo) em jogos com boas ideias.

the-crew-indievisivel

 

Os pequenos cometem erros, os grandes, absurdos. 2014 foi um exemplo de como grandes estúdios podem vender ideias sem sequer ter um produto razoável. Mas pior que isso, 2015 já apresenta alguns descasos com os jogadores.

Seja por falta de prazo, falta de capricho ou mesmo falta de vontade de aprendizado, a questão é que inúmeros jogos tem morrido e levado consigo ideias que poderiam ter rendido obras incríveis. Como desenvolvedor, sei das dificuldades que existem para alcançar o equilíbrio entre um bom jogo e uma boa visibilidade. Mas também sei que entregar produtos mal-acabados só destrói a indústria (ainda que gere muito lucro pra aquele que engana).

Como jogador, espero que as lições aprendidas em 2014 sejam realmente levadas em consideração. Não é de hoje que temos jogos ruins sendo desenvolvidos, mas a situação fica cada vez mais crítica uma vez que os desenvolvedores sabem que podem atrair seus jogadores apenas apresentando um conceito de forma bem elaborada.

Ideias inovadoras são importantes. É possível que esse seja o momento em que elas são mais necessárias do que nunca. Porém, mais do que ideias incríveis, eu anseio por um jogo incrível.
 

Compartilhe em suas redes:

, , , , , , , , , , , ,


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Escute nossos últimos podcasts:

Acompanhem nossa página no Facebook!

Parceiros