IndieVisível,Jogando a Sério

Hatred não é só um “joguinho”

16 fev , 2016  

Meu nome não é importante. O que importa é o que eu vou fazer. Eu simplesmente odeio esse mundo de merda e os vermes humanos se consumindo em suas carcaças. Minha vida é repleta de um ódio amargo e frio. Eu sempre quis morrer violentamente. Esse é um tempo de vingança e nenhuma vida se salvará. Eu vou colocar nas covas o máximo de pessoas que eu conseguir. É hora para eu matar. E é hora para eu morrer. A minha cruzada genocida começa aqui.

Essa é a premissa do jogo Hatred criado pelo estúdio Destructive Creations. O game ainda nem sequer foi lançado, mas já vem criando polêmica entre a comunidade gamer.

Devido à grande violência tratada no jogo, a Valve decidiu retirá-lo da Steam. Mas o problema é que o próprio Gabe Newell decidiu voltar atrás e recolocar o jogo na Greenlight.

vlw-gabe-hatred-indievisivel

Vlw ae tio Gabe, nóis que tá, mlk doido

Os problemas existentes no jogo não acabam aí: além de receber mais de 12.000 votos na plataforma de distribuição (o que rendeu ao jogo o 7º lugar entre os TOP 100 da Greenlight), os fãs do game começaram a fazer pedidos aos desenvolvedores para que incluíssem NPC’s baseados em pessoas reais, dentre elas Anita Sarkeesian e Phil Fish.

hatred-comments-indievisivel

Dá pra imaginar o a mentalidade desse público somente pelos pedidos feitos…

A polêmica se espalhou por fóruns, sites e grupos de debate. Dentre eles, o Boteco Gamer (grupo voltado aos gamedevs brasileiros) que reuniu várias pessoas para discutir sobre o tema argumentando se o Hatred tem passado dos limites ou não.

Depois de participar desse debate, decidi escrever este post. Não espero (e de certa forma nem quero) que todos os leitores concordem com o que será dito, mas acho necessário uma discussão mais profunda sobre o assunto.

Veja bem: não é de hoje que jogos violentos criam polêmica. Desde ’76 existem jogos que causaram problemas com uma temática violenta, e olha que naquela época você tinha que ser imensamente imaginativo pra compreender o que aparecia na tela!

De lá pra cá tivemos inúmeros casos de games que passaram dos limites de alguma forma, alguns bem conhecidos, outros não. E os temas para debate foram diversos: bullyng nas escolasracismo, ONGs se mobilizando contra o assassinato de baleias e é claro, assassinato de pessoas inocentes.

saints-row-indievisivel

E o Saints Row, que é tão pesado que é conhecido como o GTA da zuera?

Então o que torna o Hatred tão diferente para causar tanto espanto? Simples: a forma pela qual a violência é exposta.

Apesar de existirem notícias que associam homicídio à algum jogo digital, não existe nenhum estudo de fato que ligue diretamente os jogos como influência máxima para criar assassinos. Diversos estudos já foram realizados (e ainda são), mas nenhum deles consegue chegar a uma conclusão 100% válida sobre jogos criarem pessoas violentas.

Portanto, usar como argumento que esse jogo pode influenciar uma pessoa a sair matando inocentes não é real. Por outro lado, falar que o Hatred não influencia em absolutamente nada por ser “apenas um jogo” também é incorreto.

Diariamente somos influenciados pela mídia. Seja para comprar um tênis novo ou experimentar um novo serviço de TV a cabo. E é justamente esse o trabalho que qualquer mídia possui: transmitir uma mensagem ao espectador, de forma que ele possa refletir sobre ela e ser influenciado de alguma forma, seja negativamente ou positivamente.

Os jogos digitais, como costumo dizer, não são um ponto final, mas sim uma vírgula. Eles também são responsáveis por influenciar seus jogadores de diversas formas, ainda que isso não signifique necessariamente que uma pessoa cometerá um crime simplesmente por ter experimentado tal jogo.

E essa influência criada pelo Hatred, mesmo que mínima, já representa um problema. O jogo banaliza a morte de pessoas inocentes usando a desculpa de ser “apenas um jogo” utilizando a liberdade de expressão.

glauber-indievisivel

“O problema é trivializar um dos piores crimes que uma pessoa pode cometer de forma super-realista numa mídia que cientificamente influencia e educa mais do que todas as outras como se fosse rotina.” – Diz Glauber Kotaki, desenvolvedor brasileiro de jogos

E como o próprio diretor da Destructive Creations disse, jogos como Manhunt e Postal existem com uma premissa parecida. Mas eis outro ponto: a premissa é PARECIDA, não idêntica.

No Manhunt o personagem principal comete atrocidades com outras pessoas. O jogo não só mostra cenas de homicídio como ainda trabalha com cenas pesadas de tortura. Mas o ponto a ser citado aqui é: as vítimas não são pessoas inocentes, e sim criminosos de vários tipos. Isso por acaso retira o teor violento do jogo? Não. Nem o justifica. Mas contextualiza. O jogo possui uma justificativa (como jogo) para os atos cometidos nele. Uma vez que o jogador assume o papel de um assassino de assassinos, de alguma forma, retira-se a total identificação com o mundo real. Não de forma absoluta, mas ainda assim o jogo cria um outro tipo de universo. As regras aqui são diferentes.

O Postal tem a mesma pegada: você pode sair cometendo o caos e fazendo as coisas mais horríveis que se possa imaginar. Porém, também pode escolher o caminho inverso. Ou seja, o nível de violência apresentado no jogo é uma escolha do próprio jogador.

Todavia, Hatred segue a ideia de que você deve matar pessoas inocentes por causa de uma humanidade imunda. É isso. Somente isso e pronto. O jogador não tem nenhuma motivação maior para cometer genocídio, e isso faz com que a identidade do jogo perca boa parte do seu fator lúdico (senão ele todo). Aqui, as regras se assemelham imensamente às do mundo real. E isso pode ser ainda mais potencializado, uma vez que os desenvolvedores podem aceitar as sugestões dos fãs e colocar NPC’s baseados em pessoas do mundo real. Hatred é quase um simulador de assassinatos.

Mas e aí? O jogo deve ser banido?

hatred-gameplay-indievisivel

Tem gente que ainda acha legal ouvir as pessoas gritando e implorando pela vida pra um assassino louco. Vai entender…

Honestamente, acredito que em primeiro lugar um jogo como este nem sequer deveria ter sido criado.

Há aqueles que argumentam sobre a liberdade de expressão artística, mas sem uma razão sólida para os atos cometidos no jogo, eu não consigo vê-lo como arte de nenhuma maneira. Hatred não possui uma crítica, nem uma mensagem leviana ao jogador, nada. É só causar mortes sem sentido, tornando a vida de pessoas inocentes algo sem valor.

Além disso, deve-se pensar também até que ponto a liberdade artística vai. Deve-se deixar de punir o artista se ele comete um crime através de uma de suas criações? O direito de expressão do artista está acima dos direitos de qualquer outro?

sophos-1-indievisivel

“O problema é que apesar da liberdade de expressão, da inexistência do crime de opinião, existe algo chamado opinião delituosa” – Sophos Oliveira, membro do Boteco Gamer

E pra deixar a situação ainda mais grave, recentes boatos associam o diretor da Destuctive Creations com uma organização neo-nazista, o que torna o jogo ainda mais alarmante.

Não há muito a se fazer quanto o lançamento do jogo. Uma vez que o próprio Gabe quer que ele esteja na Steam, nem mesmo uma grande mobilização poderá fazer alguma diferença quanto a isso. Mas não significa que devemos deixar esse assunto de lado.

E se você ainda tem alguma dúvida sobre a violência gratuita do jogo, então veja o trailer e tire suas próprias conclusões:

O tema DEVE ser discutido. Hatred representa a quebra dos limites morais, e isso impactará não só aqueles que são contra ou a favor do jogo, mas sim toda a indústria de jogos.

Compartilhe em suas redes:

, , , , , , , , , , ,


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Escute nossos últimos podcasts:

Acompanhem nossa página no Facebook!